terça-feira, 4 de outubro de 2011

Secretário de Agricultura de Arcoverde reconhece que Matadouro é totalmente fora do padrão

Em quase todo o estado, a marreta é o instrumento utilizado para o abate, quando o correto é o uso da pistola pneumática. Municípios que não possuem veterinários e carimbam as carnes com o selo de inspeção estão legalizando o que é ilegal
“Para que um matadouro funcione é preciso que ele seja sustentado por três pontos: consumidor, higiene e inspeção sanitária.” A frase é de Paulo Foerster, médico veterinário e membro da comissão de inspeção e tecnologia da carne, parceira do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). O que se vê na prática, no entanto, é que a higiene passa longe da imensa maioria dos matadouros do interior do estado e que a inspeção sanitária só existe no papel.
É difícil conceber a ideia de que a falta de abastecimento d’ água não seja um impedimento à realização dos abates bovinos em muitos municípios pernambucanos. Cada boi abatido jorra em média 9 litros de sangue que se espalham na sala da matança, já que muitos matadouros não possuem as canaletas de sangria para captação. Pior, a inexistência da área de vômito e a exposição do conteúdo intestinal dos animais, sem a água para fazer a limpeza, tornam o ambiente impróprio para qualquer tipo de atividade, principalmente a alimentar.
De acordo com a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro), são exigidos de 600 a 6 mil litros de água por cabeça de boi. Para compensar a falta e não deixar a matança parar, algumas prefeituras compram caminhões pipa, outras improvisam guardando água em reservatórios de PVC, galões reaproveitados de tinta e baldes. Esse cenário foi visto em cinco das sete cidades que o Diario visitou: Limoeiro, Nazaré da Mata, Bonito, Arcoverde e Pesqueira. Nesta última, ao encontrar  blocos de fungos na água armazenada, ouvimos de um funcionário, na tentativa de tranquilizar os visitantes, que a água não era usada para lavar as carnes, “só o ambiente”.
Em quase todo o estado, o instrumento do abate utilizado é a marreta, descumprindo a instrução normativa nº3/2000 do Ministério de Agricultura que proíbe “qualquer ato ou uso de instrumentos agressivos a integridade físicados animais”. Para o abate humanitário, é exigido o uso da pistola pneumática que deixa o boi inconsciente permitindo que seja abatido sem a sensação dedor. No entanto, como o custo da pistola é considerado alto (de R$ 3 a 5 mil) apenas os abatedouros de Paudalho, Paulista e São Lourenço da Mata possuem. Nazaré da Mata fez a compra da pistola e da vestimenta adequada para os funcionários recentemente, depois que a reportagem visitou o local.
A ausência de veterinários nos dias de matança, em algumas cidades, também contribui com o aumento das irregularidades nos abatedouros. A presença desses profissionais é imprescindível, já que são responsáveis pela inspeção ante-mortem e post-mortem, ou seja, quando o animal chega aos currais e após o abate. “Os municípios que não possuem veterinários e botam nas carnes o carimbo de inspeção estão dando legalidade ao que é ilegal. Desconheço legislação municipal que trate da inspeção no abate, por isso a situação está desse jeito”, comentou Foerster, que há 10 anos realiza um levantamento sobre matadouros.
Sobre o fato de que 83% dos matadouros de Pernambuco não possuem condições mínimas de funcionamento não há controvérsias, mas as soluções para o problema estão longe do consenso. A iniciativa de interdição esbarra no receio de que a região seja abastecida por carnes clandestinas. Com isso, as inspeções e laudos realizados pela Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro), muitas vezes requisitados pelo Ministério Público do estado (MPPE), terminam mais sendo motivo de constrangimento para os administradores e as prefeituras do que forçam os gestores a realizarem as adequações requisitadas.

No matadouro de Arcoverde, por exemplo, o fiscal da Adagro Evandro Cavalcanti, que acompanhou a reportagem, precisou lembrar sua função para que seu acesso fosse liberado. Já a entrada da equipe de reportagem precisou ser autorizada pelo secretário municipal interino de Agricultura, Renato Campos. O fato de não ter havido mudanças significativas no matadouro de 8 de fevereiro de 2007, data do último laudo realizado pela agência, até o dia da visita do Diario, 16 de setembro deste ano, explica um pouco a “receptividade” dos seguranças.

“Esse matadouro é totalmente fora do padrão”, reconheceu o secretário Renato Campos. Segundo ele, a promessa de construir um novo espaço em seis meses partiu do secretário de Agricultura do estado, Ranilson Ramos. O detalhe é que desde 2007 o projeto vem sendo aguardado. “Tendo em vista a construção de um novo matadouro, não sugerimos o fechamento, mas adequações. O simples fechamento acarretaria a indução da matança clandestina...”, diz a conclusão do laudo.

A coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor (Caop Consumidor, do MPPE), Liliane Fonseca, não acha que a interdição induz necessariamente ao abate clandestino. “É melhor interditar e acelerar o programa de regionalização dos abatedouros do que colocar em risco a saúde da população. O MPPE recomenda, mas quem tem poder de polícia é a Adagro, portanto, é esse órgão que precisa agir com mais veemência”.

Fonte/foto/Roberto e Romero
Postado por Hozana Araújo - Repórter.com

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